Investigadores portugueses e espanhóis estudam em campo as rochas mais antigas do território e preparam futura excursão científica internacional no Geopark Naturtejo nas zonas de Segura, Salvaterra do Extremo, Penha Garcia, Rosmaninhal (Idanha-a-Nova), Monforte da Beira (Castelo Branco) e Perais (Vila Velha de Ródão) foram alguns dos locais visitados durante os dias de trabalhos de campo do projeto GEOCHRON – “Geocronologia das Rochas e Fósseis mais Antigos da Península Ibérica”. A campanha reuniu investigadores de várias instituições portuguesas e espanholas com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre a idade, origem e evolução das rochas do agora designado Supergrupo das Beiras e das formações geológicas associadas.
Participaram nos trabalhos investigadores do Instituto Dom Luiz – Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, da GeoBioTec – Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, da Universidade de Aveiro, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, da Agência de Energia e Geologia, I.P., da Universidad de Extremadura e do Consejo Superior de Investigaciones Científicas, de Madrid. A nível local, integra o grupo de investigação o coordenador científico do Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO, Carlos Neto de Carvalho, pelo Serviço de Sustentabilidade e Conservação do Património da Câmara de Idanha-a-Nova.
O GEOCHRON é uma iniciativa científica dedicada à determinação da idade absoluta das rochas e dos fósseis mais antigos da Península Ibérica, recorrendo sobretudo à geocronologia Urânio-Chumbo em cristais de zircão. Este projeto teve início em 2021 e conta com a coordenação dos professores Martim Chichorro (GeoBioTec – Univ. Nova de Lisboa) e Telmo Santos (IDL – Univ. de Lisboa), com apoios do Município de Idanha-a-Nova e da Naturtejo.
O território do Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO, e particularmente o sector fronteiriço do Vale do Erges, constitui uma área de excecional interesse para este projeto. Aqui encontram-se preservados testemunhos de acontecimentos que remontam a centenas de milhões de anos, incluindo depósitos relacionados com antigas glaciações globais e alguns dos mais antigos vestígios de atividade animal conhecidos em Portugal.
Em nota, a Naturtejo conta que durante a campanha foram observados e amostrados diversos afloramentos entre Segura, Salvaterra do Extremo, Rosmaninhal e Penha Garcia, procurando compreender a sucessão das unidades do Supergrupo das Beiras, a sua relação com as rochas magmáticas e a evolução geológica desta parte da designada Zona Centro-Ibérica.
A investigação pretende responder a questões fundamentais: Qual a verdadeira idade dos xistos da Beira Baixa? De onde vieram os sedimentos que os constituem? Que ambientes existiam quando estas rochas se depositaram? E como se relacionam com as grandes transformações geodinâmicas que afetaram a Península Ibérica e o antigo supercontinente Gondwana?
As respostas vão poder contribuir para estabelecer uma escala temporal regional mais precisa e para correlacionar a evolução geológica da Beira Baixa com outras regiões da Península Ibérica e de antigos sectores do Gondwana.
A campanha permitiu também identificar e caracterizar um novo geossítio no Parque de Merendas de Perais para o Inventário do Património Geológico e Geomineiro do Geopark Naturtejo Mundial da UNESCO, acrescentando mais um ponto de interesse à extraordinária diversidade geológica do território.
A caracterização de novos locais de interesse científico constitui uma das dimensões importantes do GEOCHRON. Além da determinação das idades das formações geológicas, o projeto pretende identificar e fundamentar cientificamente geossítios de relevância nacional e internacional, contribuindo para futuras estratégias de conservação, interpretação e valorização do património geológico.
O novo local de Perais será agora alvo de uma análise mais aprofundada, integrando a informação de campo com os resultados petrográficos, geoquímicos e geocronológicos já conhecidos e que vierem a ser obtidos.
Um dos objetivos concretos desta campanha é igualmente a preparação de uma excursão científica internacional, a realizar no território português no âmbito do International Meeting on the Cadomian Orogeny in Iberia, previsto para Setembro de 2027, em Guadalupe, na Extremadura espanhola.
Mais do que determinar uma idade para uma rocha, o GEOCHRON procura reconstruir uma parte da história profunda da Terra. A datação dos materiais recolhidos permitirá testar modelos sobre a evolução geodinâmica da Zona Centro-Ibérica, a proveniência dos sedimentos, a formação de antigos continentes e a ocorrência de grandes eventos climáticos e biológicos do passado remoto.
Os resultados serão integrados com informação estratigráfica e paleontológica e deverão ser posteriormente divulgados através de publicações científicas, congressos e recursos educativos.
O projeto prevê ainda que os resultados contribuam para novos conteúdos interpretativos e para a formação de professores e visitantes.
Esta dimensão científica assume particular relevância num território como o Geopark Naturtejo, onde a conservação da natureza pode ser entendida de forma integrada, incluindo não apenas a biodiversidade, mas também a geodiversidade — as rochas, os minerais, os fósseis, os solos e as paisagens que registam a história do planeta.
A recente revisão da Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e da Biodiversidade 2030 veio reforçar precisamente este entendimento, reconhecendo a geodiversidade como componente essencial do património natural e o património geológico como um recurso não renovável que necessita de conhecimento, conservação e valorização.